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O robô voltou, e trouxe o futuro com ele

Tenho 35 anos e nunca vi o Daft Punk ao vivo. Crescer amando música eletrônica, para mim, foi crescer

O robô voltou, e trouxe o futuro com ele

Tenho 35 anos e nunca vi o Daft Punk ao vivo.

Crescer amando música eletrônica, para mim, foi crescer com a sensação de que algo fundamental já tinha acontecido — e eu tinha chegado depois. O Daft Punk existia num lugar meio mítico: nas gravações granuladas do Alive 2007 que circulavam no YouTube com qualidade de VHS, nos relatos de quem esteve lá, na ideia constante de testemunhar algo que eu só podia imaginar. Os robôs eram reais, mas inalcançáveis. A música era minha; o momento, não.

Quando Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo encerraram o projeto em 2021, com Epilogue, aquilo não pareceu apenas um fim. Pareceu o fechamento definitivo de uma história que, de certa forma, já era intocável.

O silêncio que veio depois de Epilogue não soou como simples pausa. Soou como o fechamento real de um ciclo, como se o Daft Punk tivesse levado consigo não só um projeto, mas toda uma forma de existir dentro da música eletrônica.

Até que, numa sexta-feira de fevereiro de 2026, no Alexandra Palace, em Londres, Thomas Bangalter reapareceu num palco.

Ao lado de Fred Again…

Eu não estava lá. Mas, ao assistir ao vídeo, ficou claro que a emoção que aquilo provocava não se explica apenas pela nostalgia. Havia algo mais raro naquele instante, algo que levei algum tempo para conseguir traduzir.

O que me emocionou foi perceber que o tempo, na música eletrônica, não funciona como a gente imagina.

O Daft Punk, para mim, sempre foi origem. Foi ali que a ideia se formou: a de que máquinas podem produzir algo profundamente humano. De que um loop pode carregar memória, que um sintetizador pode conter sentimento, que uma música como “One More Time” pode ser, ao mesmo tempo, celebração e melancolia. Não era só som. Era linguagem.

Fred Again vem de outro lugar. Ele não constrói distância; ele a elimina. Usa áudios de WhatsApp, nomes reais, vulnerabilidade explícita em todas as suas tracks. Se expõe. Se aproxima.

Se o Daft Punk construiu o mito, Fred o dissolve em intimidade, diante de milhares de pessoas.

E, ainda assim, quando os dois se encontram, não há ruptura.

Há reconhecimento.

Porque, no fundo, os dois parecem entender a mesma coisa: música eletrônica de verdade não vive de acabamento, de tendência ou de aparato. Vive de intenção. O resto, o tempo redesenha.

E talvez seja justamente por isso que a música eletrônica envelhece de um jeito diferente.

Uma faixa de 1988 pode soar contemporânea numa pista hoje. Um sample antigo pode se tornar algo novo sem perder o que já era. O tempo, aqui, não é linear. Ele se sobrepõe, se reorganiza, se mantém vivo.

A música eletrônica não descarta o passado. Ela o reprocessa.

O que aconteceu no Alexandra Palace não foi um retorno nostálgico. Foi um ponto de conexão dentro desse fluxo. Bangalter não subiu ao palco para revisitar quem ele foi. Subiu para continuar sendo, em outro contexto, ao lado de alguém que prolonga essa linguagem no tempo.

O set deixa isso evidente. “One More Time” aparece não como lembrança, mas como presente. Marvin Gaye encontra o house. Gil Scott-Heron encontra a cultura de pista. Tudo se conecta. Nada soa deslocado. Nada pertence apenas ao passado.

É continuidade, não tributo.

E talvez seja isso que mais me marcou.

Não foi ver um ícone voltar. Foi perceber que aquilo que ele ajudou a construir continua reverberando em outras formas, em outros artistas, em outras pistas.

Hoje, a música eletrônica muitas vezes parece se reorganizar em torno de novos nomes, novas cenas e novos centros de atenção, como se cada onda precisasse empurrar a anterior para o passado para justificar a própria chegada. Mas o que esse momento revela é justamente o contrário. O que tem valor de verdade não some. Se transforma, reaparece, e permanece através do tempo.

Eu nunca vi o Daft Punk ao vivo.

Mas vi Thomas Bangalter, aos 51 anos, subir num palco e tocar como alguém que ainda encontra alegria nisso.

E, pela primeira vez, tive a sensação de que não cheguei tarde.

E, de certa forma, isso foi suficiente.

Fernando Liberato

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Giovana Donatelli