Music Ambassadors Tour 2025: de escolas de música destruídas à reconstrução cultural na Ucrânia em guerra
Em dezembro de 2025, a Associação Ucraniana de Eventos Musicais (UAME) concluiu a terceira edição do Music Ambassadors Tour,
Em dezembro de 2025, a Associação Ucraniana de Eventos Musicais (UAME) concluiu a terceira edição do Music Ambassadors Tour, levando 10 profissionais da indústria musical de 9 países para a Ucrânia em uma jornada de quatro dias por Kyiv, norte do país e territórios desocupados no sul.
O projeto foi criado para proporcionar a diretores de festivais, bookers, managers e profissionais culturais internacionais uma compreensão direta de como a cultura ucraniana continua funcionando, se adaptando e se reconstruindo em meio à guerra em larga escala. A edição deste ano também resultou no lançamento de um documentário que registra a jornada e as experiências da delegação. Assista ao filme aqui: https://youtu.be/2uql_ywA4Jo
A turnê começou em Kyiv, onde os participantes foram apresentados ao contraste que define a vida cotidiana na capital: luzes de Natal e praças públicas convivendo com memoriais aos defensores mortos, equipamentos militares russos destruídos e a realidade constante de apagões e geradores em funcionamento.
Em seguida, a delegação seguiu para o norte, até Chernihiv, onde visitou o Fabrychna 12, espaço cultural desenvolvido por Nata Zhyzhchenko (ONUKA) e Yevhen Filatov (The Maneken). Lá, os participantes conheceram um modelo de continuidade cultural viva: a fabricação de instrumentos tradicionais ucranianos sendo reinterpretada por meio de práticas artísticas contemporâneas e produção digitalizada. No Peremoha Centre, viram modelos de sopilka e ocarina impressos em 3D com base em designs tradicionais — não como um recurso tecnológico superficial, mas como uma forma prática de preservar e transmitir o patrimônio musical.

A parte mais difícil do percurso aconteceu no sul da Ucrânia, nas regiões de Kherson e Mykolaiv, onde os visitantes conheceram escolas de arte destruídas e comunidades afetadas pela linha de frente.
Em Velyka Oleksandrivka, o prédio da escola de artes foi destruído por um míssil balístico russo após a desocupação, tendo sido anteriormente utilizado por forças russas durante a ocupação. Mesmo estudando de forma remota, os alunos prepararam um pequeno concerto para os visitantes — um momento descrito por muitos participantes como uma das experiências mais marcantes de toda a viagem.
Em Davydiv Brid, vila que esteve na linha de frente em 2022, não há um único prédio intacto. Em Snihurivka, a escola de artes local continua funcionando em um edifício inseguro e inadequado após perder suas instalações originais. Essas visitas tornaram visível algo frequentemente ausente na cobertura internacional: a destruição de infraestruturas culturais e educacionais não é apenas um ataque a edifícios, mas também à continuidade, à identidade e ao futuro das comunidades.

“Até você vir aqui, não entende realmente a escala da destruição, a coragem das pessoas e o quanto elas são resilientes. Quero levar essa experiência comigo.” — Pavla Slívová, Head de Booking & Artist Liaison, Colours of Ostrava.
“Isso é completamente diferente de assistir pela TV e estar dentro de um prédio destruído por um míssil. O que mais me marcou foi como as pessoas em pequenas cidades e vilarejos ainda se unem e conseguem manter a esperança viva.” — Robbie Tolson, fundador da Turn The Tables.
A turnê foi concluída em Kyiv com um evento público reunindo os convidados internacionais e a comunidade musical ucraniana. As discussões abordaram o papel da música em tempos de crise: como força de união, como resposta ao populismo e à divisão, e como ferramenta para recuperação, inclusão e resiliência a longo prazo.
Foi dada atenção especial a iniciativas práticas já em andamento na Ucrânia, incluindo o EnterDJ, um projeto que utiliza o DJ como forma de apoio emocional e reabilitação para veteranos e comunidades afetadas pela guerra.
“O que a Rússia está fazendo com teatros, escolas e centros culturais não tem nada a ver com guerra. É terrorismo.” — Mikko Niemelä, CEO e promotor do festival Ruisrock e membro do conselho da YOUROPE.
“O que mais me chocou foi o quanto o mundo ainda não vê. Descobri muitas coisas das quais nunca tinha ouvido falar, o que significa que muitas dessas histórias ainda não estão chegando ao público internacional.” — Ivan Milivojev, cofundador do EXIT Festival, membro honorário da YOUROPE e embaixador do ESNS Exchange.

Para a UAME, o objetivo do Music Ambassadors Tour não é apenas receber convidados internacionais na Ucrânia, mas criar defensores de longo prazo que levem essa experiência para seus festivais, instituições, plataformas de mídia e redes profissionais em toda a Europa.
“Essa turnê não pode ser reduzida a um programa de visitas. O que importa para nós é que as pessoas não apenas vejam a Ucrânia, mas levem essa experiência para seus próprios países, eventos e ambientes profissionais.” — UAME | Music Saves Ukraine.
O documentário recém-lançado amplia essa missão para além dos quatro dias da turnê, tornando essa experiência visível para um público internacional ainda maior.